Por Juliano Pizzol


Sensível e empático, novo filme de Guillermo Del Toro concorre a 13
Oscars confrontando toda forma de preconceito


Del Toro ganhou notoriedade como diretor de cinema ao explorar o imaginário popular, inserindo seres e situações fantasiosas no cotidiano moderno, como em A Espinha do Diabo, O Labirinto do Fauno e em Hellboy, adaptação aos cinemas da série em graphic novel do autor Mike Mignola, e em A Forma da Água ele dá continuação a esta tendência, nos apresentando a zeladora Elisa Esposito(Sally Hawkins), deixada em um orfanato ainda bebê por ser muda. Elisa trabalha na limpeza de um laboratório americano altamente secreto nos idos dos anos 60, e é lá que ela conhece e faz amizade com uma estranha criatura humanóide anfíbia, que é mantida em cativeiro e torturada diariamente pelo militar Richard Strickland(Michael Shannon).

O filme faz um excelente trabalho ao retratar o relacionamento improvável entre um humano mudo e uma criatura aparentemente sem cognição, e utiliza como recurso os nossos maiores preconceitos com a nossa própria espécie, desde o preconceito racial até o preconceito sexual, usados em momentos pontuais da narrativa, sem fazer destas questões o foco principal, sendo este simplesmente o amor e empatia entre criaturas de diferentes espécies e origens.
A atriz Sally Hawkins faz jus à sua indicação ao Oscar, se valendo apenas de expressões faciais e corporais ela nos convence como uma mulher deficiente e vai além, fazendo com que o espectador se compadeça de sua condição, transbordando sensibilidade diante de um mundo duro e feio dominado por um sistema patriarcal extremamente preconceituoso, aqui ilustrado principalmente pelo comportamento do antagonista de Shannon.



É perceptível a forte influência de mitos antigos na trama da história, sendo as mais evidentes Sansão e Dalila, Tântalo, e A Bela e a Fera. Os mais atentos notarão outra interessante influência no nome do laboratório de pesquisas secreto chamado Occam, conhecido princípio filosófico de parcimônia que afirma que qualquer fenômeno pode ser explicado assumindo a menor quantidade de premissas possível.

O filme merece cada indicação ao Oscar, destacando o roteiro já mencionado, a bela fotografia, que inclusive remete a filmes homenageados no decorrer do enredo tanto visualmente como sonoramente, complementando a excelente trilha sonora com clássicos de Carmem Miranda e Caterina Valente entre tantos outros.
Outro destaque é a atriz Octavia Spencer, indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, interpretando a espirituosa zeladora e amiga de Elisa, Zelda Fuller.
Outro ponto forte é a impecável maquiagem da criatura anfíbia, que inclusive faz lembrar o personagem Abe Sapiens do filme Hellboy, nos deixando o questionamento sobre uma possível ligação entre o universo dos filmes criados por Del Toro.

Este é um filme que nos deixa na torcida pela premiação de cada uma de suas indicações, mas principalmente as de melhor filme, melhor diretor e melhor atriz principal, e você já pode conferir o filme que entrou em cartaz em todo o Brasil neste último fim de semana.

A Forma da Água

De Guillermo Del Toro

Aventura/Drama/Fantasia, EUA, 123 min, 16 anos.

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