Denis Villeneuve honra o legado de Ridley Scott com Blade Runner 2049

Por Juliano de Pizzol

Quando foi lançado em 1982, Blade runner não agradou a crítica e o público, mas com o decorrer dos anos passou a conquistar um crescente séquito de admiradores, e logo se tornou a principal referência visual entre entusiastas da cultura hacker, cyber punk e retro future devido à sua mescla contrastante entre a sofisticada tecnologia dos andróides Nexus 6, seus carros flutuantes e os outdoors holográficos, com a abissal arquitetura dos prédios antigos que abrigam objetos analógicos e móveis inspirados no art déco, responsáveis pelo tom neo noir do filme.

Pelos 30 anos seguintes se esperou por uma seqüencia, em um misto de nostalgia e apreensão pela incerteza de que se faria um bom trabalho em reproduzir aquela atmosfera tão amada pelos fãs e, após assistir ao tão aguardado sucessor, que oportunamente se passa 30 anos após o final do primeiro filme, posso afirmar que não só Denis Villeneuve fez um belíssimo trabalho de direção como também trouxe uma equipe de grandes nomes do cinema que conta ainda  com o roteirista do filme original Hamptom Fancher , e com o olhar sensível do diretor de fotografia Roger Deakins, que também integrou a produção do primeiro Blade Runner, mais uma vez se mostrando fundamentais à visão do mundo idealizado por Ridley Scott.

Minhas únicas ressalvas em relação ao filme são a ausência do músico grego Vangelis, substituído aqui pelo renomado Hans Zimmer, e a fraca tentativa de emular as referências bíblicas e filosóficas tão impactantes e pontuais no primeiro filme, aqui soando forçadas na voz do antagonista Niander Wallace, interpretado por um inexpressivo Jared Leto.

No entanto Villeneuve traz um frescor necessário ao universo de Scott, com a sua cinematografia única e por muitas vezes evocando o mito imagético criado pelo diretor russo Andrei Tarkovsky , quando a narrativa do filme se afasta do mar de concreto e neons da Los Angeles de 2049, e traz à tona a infinita desolação de uma Las Vegas devastada pela guerra nuclear, transformada em  um árido deserto vermelho ornamentado por enormes esculturas e prédior imponentes onde antes borbulhava um distrito de cores luminosas e entretenimento caro, revelando um pouco mais do que se tornou o mundo após a Guerra Mundial Terminus.

O filme responde algumas perguntas deixadas pelo antecessor, mas também traz novos questionamentos filosóficos em torno da principal premissa de Blade Runner, “o que nos torna humanos?”, conduzindo o plot principal a um novo patamar com o surgimento de um recente avanço tecnológico na linha de andróides Nexus, apenas possível  graças à engenhosa mente de seu criador, o engenheiro genético Eldon Tyrell(Joe Turkel), assassinado pelas mãos de sua própria criação ao final do primeiro filme.
O declínio da Tyrell Corporation e o grande blackout de 2022(história que pode ser conferida no curta animado Blade Runner 2022: Blackout, escrito e dirigido por Shinishiro Watanabe), estabelecem o pano de fundo desta seqüência, com Niander Wallace tomando para si os direitos de criação e produção de andróides, que agora possuem um prazo de vida limitado apenas pelo tamanho do bolso do seu comprador.

Ao contrário do filme original, que se mostra extremamente subjetivo ao deixar no ar grande parte dos principais questionamentos levantados, a seqüência é bastante objetiva, sanando antigas dúvidas ao mesmo passo em que esclarece a própria trama, imbuindo o personagem Joe(Ryan Gosling) com a alma questionadora do espectador acerca dos mistérios de ambos os filmes, tornando o agente K uma espécie de avatar da audiência dentro daquele universo pós apocalíptico. E em um mundo caótico e monocromático como o de Blade Runner, o trabalho de artistas visionários o designer de produção Dennis Gassner se torna fundamental, conduzindo a audiência pela narrativa através de ritmos sonoros cadenciados e perfeitamente sincronizados às cenas, quando os tons neon supersaturados se ausentam de cena.

Quanto ao roteiro, praticamente toda a trama é satisfatória, denotando várias camadas e nuances a serem exploradas e debatidas por fãs pelos próximos 30 anos. Mas eu sinceramente torço para que não seja necessário esperar por tanto tempo pela continuação da história que, ao final, nos deixa ansiosos pela possibilidade de um apoteótico encerramento para o arco de história do icônico personagem interpretado por Harrison Ford em 82 e, quem sabe, possa nos fornecer uma resposta ao seu maior mistério:

Seria deckard humano ou replicante?

Blade Runner 2049
.

Denis Villeneuve.

Estréia: 6 de Outubro.

Ficção Científica/Thriller, EUA, 163min, 14 anos.

Share.

About Author

Arte em fragmentos sendo registrado pelo jornalismo independente. Reunião de ideias bagunçadas de estudantes de jornalismo.

Leave A Reply