Goddard pelo olhar sensível de sua esposa,  falecida no último dia 5

Por Juliano de Pizzol 

O Formidável é o mais recente filme de Michel Hazanavicius, diretor do multipremiado O Artista, e ilustra o período mais conturbado da carreira cinematográfica do diretor francês Jean-Luc Goddard. Porém o filme não se prende ao ponto de vista do cineasta e traz um olhar mais sensível a partir da perspectiva de sua companheira, a jovem atriz e escritora Anne Wiazensky, autora da biografia de Goddard e aqui interpretada pela belíssima Stacy Martin.

Louis Garrel está excepcional como um Goddard ativista em meio as passeatas e reuniões estudantis da Paris de 1968, quando deixa de revolucionar o cinema com filmes como “A Bout de Suffle”, “Le Mépris” e “Pierrot Le fou”, e se torna um revolucionário tout court .

O casal se conhece durante as filmagens de um dos filmes de Goddard, quando a atriz tinha apenas 17 anos, e segue daí mostrando a visão apaixonada da moça pelo seu ídolo, até cair em desgosto ao perceber as excentricidades de um Goddard no auge da fama, mas completamente insatisfeito com o cinema de entretenimento.

Apesar de apaixonado, Goddard parece sempre deixar a sua mulher em segundo plano, o que vai provocando desgosto o afastamento gradual de Anne conforme ela amadurece com a história. Essa percepção feminina é demonstrada magistralmente pelo diretor em tomadas muito belas e sensíveis, como quando o casal cruza na rua com um casal de amigos e as duas mulheres se comunicam apenas por troca de olhares, e conseguimos perceber em seus olhos tudo o que estão sentindo, enquanto os seus maridos trocam palavras vazias por pura convenção social.

Outra cena memorável e de uma sensibilidade ímpar acontece na intimidade dos protagonistas, quando conversam sobre a nudez sem propósito do cinema moderno, apenas justificável em um roteiro que introduzisse a nudez por um viés inteligente, que é justamente o que O Formidável nos entrega ao revelar sarcasticamente os dois atores completamente nus enquanto desenrolam a conversa.

A cinematografia belíssima evoca imagens de filmes do próprio Goddard, bem como de outros cineastas contemporâneos ao diretor Frances, prestando homenagem ao diretor italiano Fellini, ao filmar na mesma locação da Fontana di Trevi, que se tornou famosa ao aparecer no filme La dolce Vita. Impossível também não recordar do filme Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, que se inicia justamente com os protestos estudantis de 1968. Bertolucci, amigo íntimo de Goddard, faz uma merecida aparição quando rompem sua amizade de anos, com a Fontana di Trevi ao fundo.

Michel Hazanavicius nos entrega assim um belo filme que faz homenagem não só a Goddard, mas emulando também o trabalho de toda uma geração de cineastas inovadores e aclamados tanto pelo público quanto pela crítica.

O Formidável.

De Michel Hazanavicius.

Biografia/Drama/Comédia, França, 107min.

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